Casa
I.
O primeiro disco que comprei na vida (na verdade, uma fita K7) foi a coletânea “Último Romântico”, do Lulu Santos.
Lembro de estar numa loja de discos na São Paulo dos anos 80 com meu pai e meu irmão. Estava nervoso pois mais uma vez não sabia como responder à pergunta e aí, vai ou não vai querer levar alguma coisa?
Até aquele momento, apesar de sempre estar exposto a muita música dentro de casa, eu meio que não sabia do que gostava. Tinha bastante MPB rolando na nossa família, mas salvo engano Lulu jamais fez parte do repertório. Mas é bem plausível ter escutado algumas vezes num rádio de táxi preso no engarrafamento ou algo do tipo.
(Eu tinha no máximo uns sete anos, então grande parte dessas memórias devem ser totalmente fabricadas).
Mas na minha cabeça, vendo que ia ficar chato mais uma vez fechar a cara como sempre e tentar me evadir com um não, claro que não quero nada, fui até a prateleira de fitas, olhei o que tinha ao lado do “Led Zeppelin IV” que meu irmão já tinha escolhido com convicção e apontei para a capa azul com uma foto mostrando apenas a metade da cara do cantor.
(O mais estranho é que minha lembrança é mais fixada na lombada e na contracapa laranja , o que fez eu perder um bom tempo até me certificar de que essa fita realmente existia).
Gastei essa K7 e lembro de praticamente só escutar "Último Romântico”. Fazia o mesmo com os vinis de “Tomate”, do Kid Abelha (o segundo álbum que adquiri) e o “Anjo Avesso”, do Alceu Valença: avançava até minha música favorita e quando terminava eu rebobinava e tocava de novo e de novo até ficar insuportável.
Fazíamos uma competição absolutamente idiota, em que um tentava provar para o outro que o seu disco continha a música mais longa de todas. Ninguém tinha relógio pra cronometrar, os encartes não informavam os tempos, então era tudo feito na base do grito. Lembro de ter convicção absoluta que “Me Deixa Falar” era mais longa do “Starway to Heaven” e nenhum fato me convenceria do contrário.
II.
Ainda tentando confiar na memória, meus cálculos mentais giram por volta de 30 anos desde que vi Lulu Santos no palco pela última vez. Possivelmente o primeiro show que fui em Porto Alegre só com amigos e sem ser acompanhado por um adulto. A música estava presente em novelas, festas de adolescência e vez que outra num programa de auditório, mas já não era a minha praia. A fita K7 estava há anos pegando pó numa maleta plástica vermelha, que era ótima para organizar e transportar a coleção, mas que na verdade só servia para ser esquecida dentro do armário.
(Lembro do primeiro VHS de um show que adquiri. Assisti todo o show e pensei comigo mesmo jamais conseguirei distinguir o som de uma guitarra do som de um baixo: é tudo uma coisa só).
III.
Vi Lulu tocar em Haia semana passada.
(Na primeira vez que voltei ao Brasil de férias depois de me mudar para a Holanda, fui recepcionado pelos meus amigos tocando “Casa” assim que pisei no pátio dos meus pais. Montaram uma banda só para a ocasião).
Obviamente já entendo o que cada instrumento faz e tenho até algumas obsessões com timbres, pedais, amplificadores e toda a análise combinatória ao redor. Vou a shows hoje em dia em parte para mapear esse terreno de forma visual e auditiva, mas também para me entregar ao processo.
O que me pareceu estar em jogo dessa vez, no entanto, foi desenrolar esse novelo afetivo com a música que atravessa as décadas. Fui ver o show sem planejar essa retrospectiva, que saiu ao natural tal como a fala ao microfone no começo daquela noite que também pareceu não ter sido ensaiada:
Vocês podem sentar, se quiserem. Não sei como fazem por aqui. Na verdade, podem ficar de pé também. Vocês que sabem.
Ninguém sentou.

